quinta-feira, 16 de julho de 2015

O poema mais bonito que eu já li

Oito dias.
Esse foi o tempo que levei para entender que ele realmente tinha ido embora.
Era a porra de um domingo qualquer. Ele estava com seus braços compridos em volta da minha cintura e me olhava por entre os cabelos com malícia contida. Eu amava aquela cara. Bem verdade, eu amava muito aquele cara. A pizza chegou e ele se sentou mais quieto do que o habitual. Eu amava o silêncio dele. Ele era um desses homens que sorriem mais e dizem pouco. Quando fala, tem muito a dizer, mas é sucinto. Confesso que tinha medo desse silêncio, pois achava que ele sempre tinha algo a dizer, mas não dizia.
E eu tinha razão.
Entre uma garfada e um gole de coca, ele explodiu em lágrimas. Eu perguntei o que havia e ele não dizia nada. Ele nunca dizia nada. Já tinha visto ele chorar uma infinidade de vezes, e todas as vezes eu me aninhava no seu abraço e a gente estendia a noite, mas dessa vez ele rejeitou meu toque. Eu, burra, não percebi a indireta. As lágrimas estavam um pouco mais compulsivas e os olhos grandes e escuros logo ficaram vermelhos. Ele se levantou.
— Não dá mais. Não aguento mais. Chega.
E saiu, sem mais nem menos. Dei de ombros, continuei mastigando a pizza e tudo bem. Era o décimo sétimo ou décimo oitavo teatro desse jeito. No décimo primeiro eu parei de ir atrás. Acho que ele esperava por isso, que eu fosse atrás. Larguei mão e fiquei esperando que a poeira baixasse e ele voltasse, porque ele sempre voltava.
(...)
Oito dias.
Aquele puto não voltou. O silêncio no apartamento sem a sua companhia era ensurdecedor e eu me sentia vazia. Descobri em meio aos lençóis gelados que ele não era só mais uma figurinha para completar meu álbum. Liguei três vezes e só encontrei a caixa postal. Doeu demais e odeio admitir isso. Senti-me em frangalhos.
Queria dizer que Frejat tem razão quando canta que homem não chora nem por dor, nem por amor. Mas só que não.
Oito dias.
E nada do poema mais bonito que eu já li voltar.

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